Publicado em: 19/06/2026 09:32:25
Levantamento em 60 propriedades leiteiras de Rondônia aponta falhas de manejo e alerta para a resistência bacteriana
A mastite bovina é considerada uma das enfermidades de maior impacto para a cadeia leiteira mundial. Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), coordenada pelo professor Igor Mansur Muniz, do curso de Medicina Veterinaria do campus de Rolim de Moura, tem investigado a ocorrência da doença em bovinos de propriedades leiteiras do estado e identificado índices preocupantes da enfermidade, especialmente em sua forma subclínica.
O estudo foi desenvolvido a partir da observação da realidade da pecuária leiteira em Rondônia, estado que possui forte participação de pequenos produtores e propriedades familiares. Durante visitas técnicas realizadas em diferentes municípios, os pesquisadores identificaram falhas de manejo que podem favorecer a disseminação da doença. A pesquisa tem como objetivo contribuir para a melhoria da produção leiteira, elevar a qualidade do produto e conscientizar os produtores sobre a importância do controle da mastite.
O que é a mastite? é uma inflamação da glândula mamária que pode estar associada à infecção por diferentes agentes, principalmente bactérias. Além de comprometer a qualidade do leite, a doença pode provocar perdas produtivas significativas, devido aos danos causados aos quartos mamários das fêmeas bovinas e à redução da produção destinada à indústria de laticínios.
Até o momento, a equipe já avaliou cerca de 60 propriedades e aproximadamente mil vacas. Os dados obtidos são preocupantes. Em diversas propriedades visitadas, mais de 90% dos animais avaliados apresentavam mastite subclínica, sem que os produtores tivessem conhecimento da situação.
A forma subclínica da doença é justamente um dos pontos que mais chamam a atenção dos pesquisadores. Por não provocar alterações visíveis no leite nem sinais evidentes nos animais, a enfermidade pode permanecer por longos períodos sem ser identificada, favorecendo a disseminação da infecção dentro do rebanho.
Uma das principais recomendações apresentadas pelos pesquisadores é a utilização frequente do California Mastitis Test (CMT), exame simples, rápido e de baixo custo que permite identificar precocemente os animais infectados. O teste pode ser realizado diretamente na propriedade e permite detectar casos de mastite subclínica antes que a doença cause danos mais severos.
As visitas técnicas realizadas pela equipe da UNIR identificaram situações que demonstram a necessidade de maior atenção aos protocolos de higiene dentro das propriedades.
Entre os problemas encontrados estão falhas na limpeza dos equipamentos de ordenha, ausência de pontos de água para higienização das mãos, manejo inadequado dos animais e até a presença de galinhas, cães, gatos e suínos circulando livremente nos currais.
Segundo Igor Mansur, pequenas mudanças de manejo podem reduzir drasticamente os índices da doença. A correta limpeza das tetas, a higienização das mãos dos ordenhadores, a manutenção dos equipamentos e a chamada “ordem de ordenha”, que consiste em ordenhar primeiro os animais saudáveis e deixar os infectados por último estão entre as medidas mais eficazes para controlar a mastite.
Outro resultado observado pela pesquisa foi a identificação de bactérias resistentes a diferentes antimicrobianos, fator que pode dificultar o tratamento dos animais infectados.
Para o coordenador da pesquisa, o cenário observado em Rondônia não é uma realidade isolada. “Essa situação ocorre em todo o país e, na verdade, é um problema presente nos rebanhos leiteiros do mundo inteiro. A diferença é que, em muitos países e também em propriedades brasileiras que adotam boas práticas de manejo, a doença consegue ser controlada de forma eficiente”, afirma o professor.
Os especialistas alertam que a resistência bacteriana não afeta apenas os animais. Microrganismos resistentes podem circular entre animais, seres humanos e o meio ambiente, tornando-se uma preocupação de saúde pública. Por esse motivo, cresce a defesa por maior controle na comercialização de antibióticos veterinários e pela ampliação da assistência técnica aos produtores rurais.