Primeiro surdo a receber o título de mestre em Rondônia é diplomado na UNIR


Publicado em: 01/06/2018 10:34:52.102


            Amarildo João Espíndola é docente do curso de Letras-Libras da Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e, recentemente, tornou-se o primeiro surdo a receber o título de mestre em Rondônia, por meio do Mestrado Acadêmico em Letras da UNIR.
            A dissertação de Amarildo abordou o tema da “Variação Linguística na Libras: Estudo de Sinais de Porto Velho (RO) e Rio Branco (AC)”, resultado de sua vivência e de seu percurso científico-acadêmico na Língua Brasileira de Sinais (Libras).
            Se para um aluno/pesquisador ouvinte o mundo acadêmico, especialmente a pós-graduação stricto sensu, já é bastante instigante, para um aluno surdo a experiência é ainda mais desafiadora.
            Em seu relato, disponível na íntegra em anexo, o professor conta como foi sua experiência de vida e formação acadêmica até chegar ao Mestrado em Letras. Amarildo nasceu ouvinte e ficou surdo aos sete anos, por conta de uma pneumonia e uso de antibióticos. Desde então, enfrentou diversos obstáculos relacionados à falta de informação e conhecimento dessa nova condição, desde a busca de uma suposta cura para a surdez até as dificuldades de estudar em escolas voltadas exclusivamente para estudantes ouvintes.
            Seu primeiro contato com a Libras foi por volta dos 12 anos de idade, quando pôde, de fato, ter contato com pessoas surdas e aprender a Libras. “Desde então, definitivamente, me senti com amigos, e melhor, amigos surdos. Minha identidade surda começou sua construção, minha autoestima e meu empoderamento como sujeito surdo, não assujeitado ao mundo ouvinte, tal como o percurso que vinha fazendo até então. Sentia-me livre e completo, pertencente a uma comunidade e feliz”, lembra.
            Foi este contato que despertou em Amarildo uma maior reflexão sobre sua condição, juntamente com o sonho de possuir autonomia e integrar verdadeiramente a comunidade surda. Passou então a conviver com amigos surdos, aprofundou-se na Libras  e, após formar-se no Magistério, começou a trabalhar como professor de crianças surdas. Pouco a pouco foi adentrando no debate linguístico/político sobre as questões que envolviam a comunidade surda, isto é, sua língua, identidade e cultura, e em 2008 foi selecionado para o curso de Letras-Libras da Universidade Federal de Santa Catarina.
            “Ali, meu percurso científico-acadêmico dentro da Libras ganhou corpo. Deparei-me com diversas pesquisas e pesquisadores que trabalhavam com essa temática e suas particularidades. Assim, meu compromisso discente-pesquisador se firmou cada vez mais. Em 2012 concluí o Curso de Especialização em Libras e, posteriormente, comecei a trabalhar como professor de universidade”, disse Amarildo.
            Ele explica que foi ao mudar-se para Porto Velho que a variação linguística em Libras passou chamar mais a sua atenção. “Conheço a Libras e suas variações no Paraná e em Brasília, e habitar este lugar me causou um novo impacto no que diz respeito às variações locais. Interessei-me muito pela cultura local e pelo uso da Libras pela comunidade surda de Porto Velho e Rio Branco, e pensei na possibilidade de fazer um estudo a respeito dessas variações. Além disso, percebi um descompasso no que diz respeito ao quesito quantitativo e qualitativo de pesquisas e publicações na área de Libras na região Sul com relação ao Norte do Brasil, isso também me fez sentir impelido a contribuir com o adensamento das pesquisas nesta região”.
            O caminho escolhido por Amarildo para dar continuidade às suas pesquisas foi o Mestrado em Letras da UNIR, concluído em 2018, com a provação de sua dissertação sobre o tema “Variação Linguística na Libras: Estudo de Sinais de Porto Velho (RO) e Rio Branco (AC)”.
            “Dessa forma, cheguei ao fim de mais um desafio na minha vida: o Mestrado em Letras, na Universidade Federal de Rondônia. É um momento de muito orgulho e felicidade. Além de simbolizar o fechamento de um ciclo, a experiência de entrar no mundo cultural e vibrante de um pedacinho do Brasil, Rondônia, e me deparar surpreso com as variações locais linguísticas em Libras e em Língua Portuguesa, com a miscigenação do povo brasileiro e com a riqueza cultural da cidade de Porto Velho, retratado em suas comidas típicas, frutas, animais silvestres, flora e fauna, serviu para complementar ainda mais o meu repertório científico e cultural com relação ao Brasil e à Libras. Aprendi muito nesta etapa da minha vida e que venham outros desafios!”, concluiu o professor Amarildo.