Histórias, Cidades, Patrimônio e Cultura: Viagem de estudo


Publicado em: 28/06/2019 15:29:38.951


por Adriane Pesovento*

          Muitas coisas a sala de aula e os professores ensinam. Conteúdos, discussões, leituras, debates acadêmicos e produção de ciência, contudo, há outras “ciências” que as vezes não são alcançadas pelo dia a dia da universidade, entre elas: viver e sentir lugares, ouvir pessoas e conversar com elas. Ler o patrimônio histórico à luz dos autores e dos sentidos dados aos lugares históricos que resistem em existir e nos mostrar que o passado reside no presente e “co-habita” a contemporaneidade.
          A viagem de estudo, realizada entre os dias 20 e 24 de junho de 2019 com estudantes do curso de Licenciatura em História foi um espectro dessa dimensão do ser estudante da graduação. Na proposta realizou-se visitas às cidades que apresentam vestígios do passado. Optou-se por estudar o período colonial e sua face e relação com parte da Capitania de Mato Grosso, espacialidade que compunha a América Espanhola, mas que aos poucos, por meio da geopolítica de expansão foi se alargando e recriando fronteiras que ultrapassavam os limites estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas. Desse modo, por meio de uma política luso foi se redesenhando a América Portuguesa, que com o tempo tornou-se o que hoje conhecemos como Brasil.
          Foram realizadas visitas e arguições em cidades como Vila Bela da Santíssima Trindade – MT, primeira capital da então Capitania de Mato Grosso que no século XVIII tornou-se palco dos propósitos portugueses, às margens do Rio Guaporé afluente do Madeira. Na oportunidade conheceu-se as ruínas da então Matriz da Cidade, os estudantes tiveram o privilégio de ouvir D. Nemésia, mulher negra empoderada que em seu lugar de fala mostra a presença africana em terras da Amazônia. A mesma, detalha a festa do Congo, o Kanjinjin (bebida típica e única no país) e reafirma que a negritude é parte marcante da história desse país.
          Em gesto de delicadeza, toca os estudantes colocando-lhes em suas cabeças, o capacete da festa do Congo, os turbantes com seus incríveis amarrados e trançados. Ela toca os estudantes e é profundamente tocada por eles, levarão para vida, essa dimensão da cultura.
          Num segundo momento, realizou-se visita a cidade de Cáceres, fundada no governo de Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, então denominado Vila Maria (a categoria de Vila no período colonial, significava ter um status político e eclesiástico diferenciado dos arraiais). Lá o acervo reúne patrimônio que denota ao período colonial, todavia, com as sobreposições de períodos como o século XIX e XX. Ruas estreitas, casarões que a janela bate a rua, calçadas estreitas e matriz ao centro. Na praça, o Marco do Jaru, do outro lado o suntuoso Rio Paraguai.
          Descendo para Cuiabá, a expectativa aumentava e aos poucos era saciada por cada monumento, igreja, casarão, rua, estátuas, artes plásticas, arte “rupestre urbana”. Visita ao Museu de Arte Sacra com peças dos séculos XVII, XVIII e XIX. A cidade, hoje uma metrópole insiste em valorizar seu passado, lugares restaurados que avivam o olhar do espectador. Na Companhia de Artífices, hoje sob os cuidados do Sesc, viu-se o belo do ontem em diálogo com possibilidades do presente, um espaço cultural que valoriza a música, a dança, o teatro, a leitura e o simples estar no lugar e repousar viajando em pensamentos. Cuiabá que não foi a primeira capital, mas que reunia condições para tanto, hoje mostra-se imponente, pujante e ocupa a parte mais central da América do Sul. O calor companheiro da baixada cuiabana foi gentil com os estudantes da Universidade Federal de Rondônia e tornou as caminhadas menos penosas aos transeuntes de Rondônia.
          Já se aproximando o findar da viagem, um grande presente: Chapada dos Guimarães, o caminho é cartão postal, não há palavras para explicar a beleza que o tempo esculpiu em suas rochas e geografia de cerrado.                      
          A cidade colorida e linda. O artesanato reina por todo lado. A igreja de Santana acalma e acolhe, seu acervo colonial preservado, data de 1779 e ainda hoje observa e é observado por aqueles que lá passam, a comunidade a mantém não apenas como patrimônio, mas como constituinte da vida cotidiana, as tradições religiosas são realizadas toda semana e a vida segue comunicando o passado com o presente.
          O paladar e a culinária são constituintes da cultura e da história de um povo, só não percebe quem não tem tempo para pensar nas delicadezas e belezas do cozinhar e se alimentar. O sabor ficou na memória degustativa: rosca da festa de ramos (Vila Bela) mais do que alimento é arte em forma de gostosura, o kanjinjin com suas receitas secretas (afrodisíaco para o amor e também para a dor da escravidão) e a comida no fogão de lenha mexida e remexida por mãos de cozinheiras hábeis e amorosas. Tudo é história. Celestin Freinet, educador do bom senso, já dizia que aprendemos por meio de todos os sentidos, nesse caso destaca-se:  ouvir, ver, sentir, comer, falar, tocar, caminhar, chegar e pensar. Essa é a síntese da proposta, a história está além dos muros das universidades e no nosso caso só foi possível pois a Universidade Federal de Rondônia, o Campus de Rolim de Moura, o Departamento de História e os estudantes como protagonistas não mediram esforços para que a experiência ocorresse.                              
 *Adriane Pesovento é Doutora em Educação pela UFMT (2014). Licenciada e Bacharel em História pela Universidade Federal de Mato Grosso (1999), Mestre em História pela Universidade Federal de Mato Grosso (2004). Possui experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil, História Indígena e Regional, bem como em disciplinas relacionadas aos fundamentos da educação. Trabalhou como professora da Educação Básica durante 16 anos. Docente efetiva em história pela Secretaria de Estado de Educação em Mato Grosso entre os anos de 2000 e 2010. Atua no ensino superior há 19 anos. Atualmente é professora da Universidade Federal de Rondônia, instituição em que ministra aulas de História do Brasil Colônia, História do Brasil Império, História da Educação e Didática. Participa do GEPEA. Participou como membro da Comissão para concorrer ao Edital MEC/SECADI para implantação do Curso de Licenciatura em Educação do Campo da UNIR. Foi coordenadora do curso de pedagogia da União das Faculdades de Alta Floresta. Coordenou a gestão de processos educacionais do PIBID - UNIR. Atualmente coordena o subprojeto Pibid História e a Especialização em Gênero e Diversidade na Escola - GDE
Informações coletadas do Lattes em 04/06/2019